A proposta era o uso de diálogo com alguns "implícitos" dos personagens.
Luiza, a mais nova, parecia não estar na sala. Muito ocupada, estava mais atenta aos bipes do celular, às janelas opacas e aos próprios devaneios de alienação deliberada. A Sílvia do meio, os olhos fundos de pequena e sempre, suspirava. Ainda guardava o rabo de cabelo seco no alto da cabeça- e que cabeça grande tinha, coitada. Cléber, o primogênito, não quis sentar e via todos do alto do seu comprimento.
Os três encaravam o pai, o velho João, contente em ver os filhos juntos. Cléber iniciou o papo.
- E então, pai, como andam as coisas, a casa, as enfermeiras? Conta pra nós, como anda tudo.
Luiza mexia no celular, bipbipbip, e Sílvia roia as unhas que nunca teve.
- Tudo indo, meu filho, tudo indo ao seu tempo. A casa é grande para esse velho solitário, mas as enfermeiras dão qualquer graça ao vazio que a mãe de vocês deixou. Coisas da vida, vocês devem saber disso.
João olhou para o rosto dos filhos, um por um. Disse que estava feliz em vê-los, que Sílvia parecia cansada, que Luiza devia tirar franja dos olhos e que Cléber, por favor, parasse de se comportar como um político; que deixasse isso para Brasília. E todos riram, um milagre, para a festa de João.
Mas o fato é que político ou não, Cléber já havia convencido Luiza bipbipbip de que o melhor para o pai era um asilo, que conhecia casas que podiam abrigá-lo com muito conforto e cuidado. Sílvia sabia por cima da história, só pelo telefonema que recebera como aviso do encontro. Desde então, andava desconcertada, mas sem muita coragem.
- Pai, então... – disse Cléber -Nós estamos muito contentes de estar aqui com o senhor. É bom ver que tudo está bem e funcionando, mas achamos que isso realmente pode ficar ainda melhor. - E Cléber abriu um sorriso largo, indo até as costas do pai e agarrando com firmeza os ombros velhos de pelanca.
- Mas que bom, meu filho, e como será isso? Que boa notícia vocês estão me trazendo?
Bipbipbip, o Cléber inflou o peito e, rápida, Sílvia interrompeu.
- Pois então, pai, tenho certeza que ficarás contente!
- Ande, Silvinha, fale logo, seu velho pai está curioso...
Bipbipbip.
- Pai querido, é que decidimos que vou morar junto com o senhor. Assim lhe faço companhia e ajudo a na administração da casa. O que lhe parece, hein?- perguntou com algum entusiasmo.
Cléber olhou o chão. Resolveu enfim sentar, com as duas mãos de apoio à testa grande.
Bipbipbip. Bipbipbip.